Duas sobre feminismo

Clarion, você se considera feminista? Vi seus vídeos sobre feminismo, até mesmo o da caixa de bombons, mas mesmo assim mantenho a pergunta. `Pra deixar claro, na minha opinião, não é preciso concordar 100% com uma ideologia para se declarar a favor dela.
Apenas acho que se deve conhecer, concordar com boa parte de suas ideias e desejar a sua implantação na sociedade. Tendo dito isso, segundo isso, você se considera feminista?

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Então Júlia, é uma pergunta que vai mais longe do que parece... a princípio, antes de começar a tocar no assunto, eu me considerava, digamos, 80% feminista. Algo como apoiava a maioria das causas, mas discordava de um ou outro detalhe.

Quando cometi a "heresia" de expor esses pontos onde eu não concordava, acabei conhecendo uma outra face do feminismo, muito mais feia, de fanática, dogmática, autoritária, etc.

Talvez, segundo a definição "oficial", eu possa me considerar feminista. Mas dificilmente vou ser profundamente a favor de nenhuma entidade/grupo/organização feminista.

Sou a favor da igualdade. Sou a favor da extinção dos preconceitos de gênero. Sou a favor do combate - através de conscientização, campanhas, argumentação, e não de leis - à discriminação seja onde ela apareça, seja nos maridos que se sentem no direito de bater nas mulheres, seja nas mulheres que se sentem no direito de bater nos maridos.

Não sou a favor de nenhum tipo de lei que segrega pessoas por gênero como a Maria da Penha, embora seria a favor de uma "versão" da mesma lei que combatesse a "Violência Doméstica" em vez de apenas a "Violência Doméstica Contra a Mulher". Considero sexistas todas as ONGs feministas que tiveram parte na elaboração do texto dessa lei, e todas as pessoas que defendem a redação atual.

Discordo de qualquer lei que dê direitos e/ou deveres diferentes pra homens e mulheres sob qualquer pretexto, exceto apenas nos casos em que há diferença BIOLÓGICA e INCORRIGÍVEL entre os mesmos (caso da maternidade, por exemplo).


Sou absurdamente contra a culpabilização das vítimas de estupro, mas também sou contra exageros como dizer que cantada tosca e chantagem emocional são estupro, censura e processos contra piadas, etc.

Sou contra a diferença salarial entre homens e mulheres, mas também sou contra quem tira a conclusão apressada que isso é culpa apenas do preconceito dos empregadores, sem considerar que a educação dos pais, as responsabilidades familiares, as opções de vida e até quem sabe os próprios genes influenciam na conta. Sou terminantemente contra resolver o problema através de cotas e leis que interferem apenas no final da equação.

Sou contra o "Slut Shaming", a (des)valorização da mulher por causa da sua atividade sexual ou das suas roupas, mas acho um exagero quando começam a policiar meus gostos e querer ditar o que eu devo ou não devo achar bonito ou feio.


Sou, especialmente e acima de tudo, contra pessoas que acham que problemas como os citados acima precisam ser resolvidos urgentemente, através de leis rigorosas, mas ao mesmo tempo acham que questões como 90% das guardas de filhos irem pras mães, homens levarem 40% mais tempo de cadeia pelos mesmos crimes, ou a Dilma determinar que em caso de divórcio no Minha Casa Minha Vida, a casa ficar automaticamente pra mulher, são questões que não merecem o mesmo tratamento e urgência. Pessoas que, quando o caso é discriminação contra o homem, subitamente adquirem a capacidade de interpretar fatores externos, enxergar múltiplas variáveis, diluir a "culpa" e enxergar soluções alternativas pro problema. Acho essas pessoas hipócritas e sexistas.

Resumindo: Sou contra todas as formas de sexismo, seja através de opressão seja através de vitimização, sou contra direitos e/ou deveres diferentes, seja contra ou a favor de homens ou de mulheres.




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Qual sua opinião sobre movimento feminista?


Quer me deixar em maus lençóis né? XD Vamos lá...

O movimento feminista nasceu em um tempo diferente, onde ele era mais que necessário. Lutou por direitos básicos que eram negados às mulheres, e ainda são até hoje em algumas partes do mundo.

Com o tempo, no entanto, ele começou a ficar confuso. Os anos foram se passando, e as conquistas foram sendo atingidas. O voto, o direito a trabalho, educação, até mesmo o divórcio... a igualdade "jurídica" foi alcançada. O universo de "problemas" do feminismo foi diminuindo, mas o número de feministas só fez aumentar.

Esses grupos, cada vez maiores e mais heterogêneos, precisavam então fazer alguma coisa pra "sobreviver". Eles começaram a inventar problemas, policiar piadas, tomar conta do que passa na televisão, de como as mulheres se vestem, etc.... As desigualdades JURÍDICAS foram se extinguindo, mas os tentáculos políticos do movimento só crescendo. E começaram a surgir novas leis desiguais, mas dessa vez, em favor da mulher - como a Maria da Penha, por exemplo. 

Aos poucos, o feminismo foi se tornando uma massa amorfa, onde questões sérias como o aborto e a condenação de vítimas de estupro se misturam a questões ridículas como protestos contra a agressão sofrida pela vilã da novela, e panfletos que defendem que "cantada de pedreiro" é estupro. 

Eu poderia até conviver com isso, mas minha maior crítica, hoje em dia, mas o que mais me perturba é o quanto o movimento tem tomado ares de "religião". Já tem seus próprios dogmas, suas próprias verdades inquestionável, seu próprio demônio (o "Patriarcado"), sua própria cartilha de certo e errado. Estive por dois dias em um grupo de discussão feminista, e cheguei a presenciar uma delas praticamente pedindo autorização pros demais membros do grupo pra postar uma foto mais sensual de si mesma, querendo saber se a foto era aceitável segundo os valores feministas. E o pior de tudo, claro - tornou-se um movimento que não aceita críticas. Que ao menor sinal de que você não concorda com ABSOLUTAMENTE TUDO que eles fazem, você é imediatamente um agente do mal, um agente do patriarcado querendo oprimir as mulheres, etc etc etc.


Tenho plena noção de que existe, no papel, um "feminismo de verdade", que é 100% justo, igualitário, etc. Tenho até mesmo noção que existem algumas dessas "feministas de verdade". Mas seria hipocrisia, ou melhor, Falácia do Escocês, querer dizer que apenas essas são legítimas representantes do feminismo.